sábado, 24 de abril de 2010

Solidão: Uma Via De Mão-Dupla


Solidão: Uma Via De Mão-Dupla

Precisamos de vínculos reais, relações significativas; amigos, amores, família, conhecidos, animais; compreensão, carinho, desafio e etc. Entretanto também é certo que exista um sensato grau de solidão. Ela é parte indissociável da vida. A questão então é compreender e aceitar essa “solidão inerente”, aprender a conviver com ela, transformar seu sentido cruel em encanto, para poder senti-la como uma experiência importante, vital e única.


A solidão envolve graus psicológicos, isso é óbvio. Uma pessoa pode estar na multidão e sentir-se só, se assim ela pensar, acreditar. Há pessoas que gostam de estar sozinhas, preferem até ser solitárias – não digo nos casos de escapismo – e não há solidão em seu peito, pelo contrário, são muito felizes e se sentem em paz. Você deve ter percebido que a idéia de solidão também é algo criado pela mente, de como você a entende. O que é para uns não é para outros e vice-versa. Lembre-se de que o foco é como o homem entende a solidão, sendo que a solidão criada por ele é relativa.

Se a solidão é criada pela mente, para suprir a necessidade dessa criação, ela precisa de uma outra. Geralmente, a solução é procurar alguém para se relacionar. Isto se torna um ciclo vicioso, visto que é baseado em uma ilusão.

Perceba que descrevo a solidão como sendo também criada pela mente humana, mas por quê? Porque a solidão pode ser tanto ilusória como real. Apesar de o homem determiná-la de forma ilusória, ela é ao mesmo tempo real, fora da criação da mente. Portanto, faz parte da natureza do homem de forma aparente e realista.

No entanto, como entender que ela é ilusória e real? Da seguinte forma: você nasce acompanhado de sua mãe e médicos, mas quem nasce realmente é só você; você convive com outras pessoas ao seu redor, mas isso não tira o fato de que você está só, e a prova disso é que ao morrer, só você morre, a morte é a prova final do desapego de tudo, é admitir a individualidade, é expor que você é único e sempre foi sozinho.

Jung, um dos maiores psiquiatras e criador da psicologia analítica, vê a morte como parte do processo de individuação, através do qual cada ser tem de trilhar um caminho para realizar o sentido da sua existência. Através desse processo, o indivíduo identifica-se menos com as condutas e valores encorajados pelo meio no qual se encontra, pelo externo, pelos outros, e mais com as orientações emanadas do Si-mesmo. É o estado de solidão. O morrer, na verdade, é a representação do desapego total aos interesses do eu.

A morte não é algo separado da vida, não é o seu oposto, ela acontece em vida, é a sua conclusão, não algo fora do processo. A morte mostra que até o seu corpo físico não é seu, pois vai ficar e se decompor na natureza. A idéia que você cultivou de que não está sozinho é uma ilusão, você é um ser individual, está “dividido”, isso é fato!

Lembre-se que é você com você mesmo e acabou. Sempre foi! As pessoas são passageiras, mas você não, você é o único que está com você o tempo todo. Digo o você interior, o seu Ser.

Osho, graduado em filosofia e um dos homens mais conhecidos e provocativos do século XX, afirma que é necessário estar só e que “só se está realmente vivo quando tornamo-nos capazes disso, quando não mais existe dependência em relação a ninguém, a nenhuma situação, a nenhuma condição. E por ser tua, podes permanecer nela de manhã, à tarde e à noite, na mocidade e na velhice, na saúde e na doença”.

Estar só é um fenômeno interno e não externo, não se esqueça disso. Você não elimina a solidão com algo externo, com pessoas, pois uma jornada interior é uma jornada em direção a solidão absoluta. Não tens como levar alguém contigo neste encontro interior. É impossível compartilhar o teu centro, o seu Ser, com quem quer que seja, nem com o seu amado ou amada, nem com seu irmão ou com seus pais. Está é a natureza humana e não há o que possa ser feito para mudá-la. No momento em que você se volta para o seu interior, quebram-se todas as comunicações com o mundo externo. Na verdade, o mundo todo desaparece.

É por isso que os místicos dizem que esse mundo é um “maya”, é algo ilusório. Não que o mundo não exista, mas para quem medita, como os Budas, para quem entra em “transe” em meditações profundas, é quase como se o mundo externo não mais existisse. Essas meditações, que podem acontecer em templos ou no dia-a-dia, te levam para a não-existência.

Experiências com Budistas em meditação mostram que, no ápice da jornada meditativa, ocorre redução drástica de seu campo de orientação. A suposição é que essa região cerebral se faz temporariamente “cega” para os dados provenientes dos sentidos – o que explicaria sua sensação de ligação indissolúvel à totalidade da Criação. Mais uma vez, no entanto, o resultado da experiência nada diz acerca do conteúdo de verdade da crença ou de certos dogmas de diferentes religiões.

Veja que o estado de solidão é algo tão real e é uma situação tão natural que não tem como fugir, na verdade não há necessidade. Pelo contrário, quando você se reserva por algum tempo, aceitando a idéia de que você está só – seja em uma montanha, em sua casa ou meditando – você melhora seu corpo e sua mente, os benefícios já aparecem. No entanto, em um primeiro momento, vem o medo do vazio e você tenta afastar esse vazio de dentro de si, você procura fugir da solidão. Mas a solidão só é um vazio porque você quer esquecê-la e fazer isso é ir contra a sua natureza, por isso ocorre o conflito. Não precisa temer a solidão, pois isso é só um mal-entendido que nos deixa estranhos a nós mesmos.

Perceba que o vazio ou a solidão mal compreendida aparece quando as pessoas perdem aquilo que amam, aquilo que colocam como o sentido da sua vida. Se colocar algo externo como o sentido de sua vida, esse algo pode sumir e a solidão mal compreendida pode lhe abater. Pois aquilo que era importante e que te preenchia se foi. Você perde o referencial e tudo perde o sentido. Daí, surgem as crises.

A cura para o vazio é dar sentido a existência, e não banir a solidão. Dar sentido a existência é reconhecer que é necessário buscar a presença que nunca se faz ausente. Não é possível relacionar essa presença com coisas ou pessoas, já que as coisas podem ser perdidas, roubadas, destruídas… e as pessoas podem abandonar, rejeitar, trair… A Presença que nunca se faz ausente é você mesmo.

Não seja extremista, não pense que estou falando para se tornar um egoísta. Estou tentando mostrar-lhe que é imprescindível se tornar um indivíduo. Você precisa ter amor-próprio, mas não se tornar um narcisista. O amor-próprio se torna narcisista se não for além, se ficar condicionado a si mesmo. Mas quando esse amor se expande, se torna o começo de todos os amores, aí sim, têm-se amor sólido e verdadeiro. Sabe por quê? Porque você só pode dar aquilo que é seu, não há outra maneira. Você não pode ser intermediário, um meio por onde o amor passa e se transfere para os outros.

Então não faça da solidão uma privação circunstancial que deve ser combatida. Aprenda a viver bem com a sua companhia. Essa solidão “ruim” se associa a sensações de isolamento e vazio. Ela costuma esconder frustrações de relações passadas, dificuldades de relacionamento e etc, mas como eu disse anteriormente: estar só é um fenômeno interno e não externo. É como você ver as coisas. Veja além do que elas aparentam ser.

Aprecie a solidão como uma coisa boa. Para os existencialistas franceses, a descoberta da solidão é uma experiência necessária e libertadora. Para a psicanálise, a solidão “boa” é um estado de saúde interna, de integração psíquica e de silêncio. Já para a psicologia analítica cada ser tem de trilhar um caminho para realizar o sentido da sua existência. Como pode perceber, existe vários conceitos a respeito e que demonstram o lado positivo que a solidão oferece. Só depende de você.

Marcelo Vinicius

11 comentários:

  1. Muito bom o artigo de hoje e tantos outros que tenho lido no seu blog, e alguns tem ajudado não só a mim como pessoas a quem envio também.
    Obrigada
    Clarice

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  2. Eu vivo, alguns bons anos sozinha,fui morar com minha mãe me senti controlada,voltei a morar só,as pessoas perguntam como pode ficar assim,e eu penso sobre ela,como ela pode não suportar a solidão,o estranho é quando estava casada sofria de solidão. Não sei se conseguiria viver com alguém mas, eu digo para vocé, vai ser um ato difícil já que me sinto casada com aminha solidão.Beijos-

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  3. Se sentir só nao é só tar na solidao,a gente dar prioridade a si mesmo,pois estando só pensamos no que passou em mente td que um dia nós dar...Adorei seu artigo de hj,lendo eles estou percebendo muitas mudanças em mim que entendo agora ,pois nao entendia antes ,estou cada dia imprecionada com td isso que leio...Parabéns bjos

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  4. Ceiça amei o texto, e ele chegou no momento certo.
    Estou passando por aguns momentos, onde após ler este artigo, conseguir traçar minhas metas e objetivos para solucionar alguns, agradeço a vocês e peço que Deus continue dando a vc sabedoria para nos enviar palavras como estas, obrigada!

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  5. Maravilhoso este Artigo, assim como todos que são postados aqui. O Blog é lindo também, tem muita Luz, ensinamentos e espiritualidade e nos transmite paz. Parabéns,
    Beijos da Rose.

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  6. Maravilhoso texto: ele consegue expressar exatamente os nossos sentimentos.
    Quanto mais aprendo a viver comigo mesma, mais atraio pessoas que querem conviver comigo.
    Obrigada por todas estas maravilhas com que nos tem brindado para ler.

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  7. Amei o texto, tava precisando mto disso...
    OBRIGADA!!
    Bjus

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  8. Texto maravilhoso.
    Fiquei viúva, criei 2 filhos que contituiram fam´lia e se foram......fiquei só!!!!!
    Tive que aceitar a solidão. Foi difícil mas hoje compreendi que isso era importante para mim.
    Agora, vivo feliz e preencho meu tempo de várias maneiras. O principal é que tenho como companheiro:JESUS
    Obrigada por mais uma ajuda!!!!!!!!!Bjssssss

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  9. Ceiça, voce é mais que um sonho, é uma vida que se fez dividida pra nos alcançar...
    beijos milllll
    Bel

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  10. Maria Inês Ferrari25 de abril de 2010 22:16

    Bellissimo Texto !
    Mil vezes Obrigada por tudo que envia.
    Faz com que viajamos no nosso interior e rafletimos.Aprendendo sempre a conviver com a vida como ela é.
    Que Deus a Ilumine Hoje e Sempre.
    Beijos em suas mãos .
    Inês

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  11. Oi minha amiga querida! Adorei o texto, é "refrescante" para mim. Saudade. Bjs, Re

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